
Vazante: entre a desumanização e o corpo como último recurso
26/04/2026
Vazante é um filme potente e impactante, que inquieta e permanece. Sua fotografia em preto e branco intensifica a aridez, o vazio e a desumanização que atravessam a narrativa. Não é apenas um filme sobre escravidão — é um filme sobre relações de poder, corpo e subjetividade em um regime de desumanização radical.

O filme foi dirigido e escrito por Daniela Thomas (filha do cartunista Ziraldo) e Beto Amaral. Estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim em 2017. Ele aborda a escravidão nos anos 1820 no Brasil, sendo ambientado no interior de Minas Gerais. Mais do que retratar um período histórico, o filme nos coloca diante dos efeitos da escravidão nas formas de relação e na constituição dos sujeitos.

Racismo estrutural e narcisismo
Percebe-se, no filme, o racismo operando simultaneamente como estrutura social e psíquica.
O outro negro não é reconhecido como sujeito, mas reduzido à condição de objeto — de uso, de exploração do trabalho e também do corpo.
A desumanização é escancarada, e o ódio se impõe como elemento central dessas relações.

Como nos indica Pulsões e destinos da pulsão, de Sigmund Freud, o ódio antecede o amor. Isso porque, na constituição inicial do eu, aquilo que vem de fora tende a ser vivido como fonte de desprazer, sendo primeiramente rejeitado.

No filme, isso se expressa na impossibilidade de reconhecer o outro como semelhante. Em vez do reconhecimento, há o predomínio do ódio, que coloca o outro na posição de alvo de rejeição, domínio e aniquilamento simbólico.

Sob a ótica psicanalítica, o racismo pode ser compreendido como uma defesa narcísica frente à alteridade. Busca-se neutralizar aquilo que, no outro, aparece como diferença. O outro negro não é reconhecido como sujeito, mas reduzido à condição de objeto a ser dominado, como se sua existência precisasse ser controlada ou anulada.
Nesse sentido, não se trata apenas de exploração, mas da impossibilidade de sustentar a existência do outro como semelhante. O outro torna-se intolerável porque encarna a diferença — e é justamente essa diferença que ameaça o narcisismo, convocando sua negação, submissão ou apagamento.
Da falha da palavra ao corpo
Uma entre tantas cenas que mobilizam, que marcam e que nos colocam a pensar é a daquele escravo que, em alguns momentos, expressa sua revolta pela via da fala — numa tentativa de se comunicar em uma língua que não é compreendida. Há ali um esforço de inscrição pela palavra, um apelo ao outro que, no entanto, não encontra escuta nem reconhecimento.
É justamente nesse ponto que se evidencia uma falha do simbólico. Quando a palavra não encontra lugar, algo se desloca para o ato.

Nessa cena, vemos um sujeito que não se resigna à posição que lhe é imposta. Diante da impossibilidade de ser reconhecido como sujeito, ele recorre ao corpo, em um gesto extremo. Comer terra pode ser lido como uma recusa radical de permanecer na posição de objeto — uma forma trágica de interromper uma existência marcada pela dominação.
Quando não há lugar para o sujeito na linguagem, o corpo torna-se o último território possível de inscrição — mesmo que isso implique seu próprio aniquilamento.


Rosita Esteves
Psicóloga | Psicanalista
Rua Moreira Cesar, 2821/23
(54) 99183 3344
Instagram: @rositaesteves.psicanalista
Site: https://rositaesteves.com.br/
2026/Abr
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