
“Meu nome é Agneta”
31/05/2026
"Meu Nome é Agneta" é um filme sueco baseado no livro homônimo (Je m’appelle Agneta) da autora Emma Hamberg, dirigido por Johanna Runevad e estrelado por Eva Melander e Claes Månsson.


"Meu Nome é Agneta" não é um filme sobre grandes acontecimentos externos, mas sobre transformações subjetivas, envolvendo a questão do desejo, do envelhecimento, da solidão, da vitalidade psíquica e da possibilidade de continuar se transformando ao longo da vida.
O título do filme já me parece uma pista importante. "Meu nome é Agneta" não é apenas uma apresentação. É quase uma afirmação de existência.
Quem é você? Qual é o seu nome?
Do ponto de vista psicanalítico, sabemos que essa resposta não nasce pronta. Ela se constrói gradativamente, através dos vínculos e das relações com aqueles que nos cercam. Tornamo-nos quem somos, vamos construindo nossa identidade, a partir do olhar do outro, do lugar que ocupamos para ele e das marcas que essas relações deixam em nós.

Ao assistir "Meu Nome é Agneta" fiquei pensando como a psicanálise nos ensina que o sofrimento nem sempre decorre da falta de objetos, pessoas ou atividades, mas da perda da ligação com o próprio desejo.
Agneta parece inicialmente capturada por uma existência empobrecida de investimentos afetivos. Aos poucos, porém, novos encontros produzem deslocamentos e reabrem a circulação da vida psíquica. O filme mostra que o sujeito pode voltar a desejar mesmo depois de longos períodos de retraimento. Ela nos lembra que o desejo não tem idade.
Algumas cenas me parecem especialmente expressivas porque condensam, de forma muito delicada, os grandes temas subjetivos do filme:
A CENA EM QUE AGNETA ESCONDE OS QUEIJOS

Pode parecer uma cena simples ou até cômica, mas ela é profundamente simbólica.
Ali aparece uma mulher que precisa esconder seus pequenos prazeres, seus gostos, seus excessos, seu desejo. Como se aquilo que a faz viva precisasse existir clandestinamente.

Psicanaliticamente, me parece uma cena sobre a renúncia silenciosa de si mesma. Não estamos falando apenas de comida, mas do quanto Agneta havia aprendido a ocupar pouco espaço na própria vida.
No entanto, o filme também nos mostra que seu desejo nunca desapareceu completamente. Ele estava vivo, embora clandestino. Escondido nos queijos, nos vinhos e nas imagens da França visitadas à noite, no isolamento do seu quarto.
Isso torna sua transformação ainda mais interessante, porque não se trata do nascimento do desejo, mas da sua saída da clandestinidade. O desejo deixa de viver escondido e passa ocupar um lugar legitimo em sua existência.
A PARTIDA PARA A FRANÇA

A decisão aparentemente impulsiva de responder ao anúncio e partir me parece uma das cenas centrais do filme.
É quase um ato de ruptura com uma identidade cristalizada.
Freud dizia que muitas vezes seguimos repetindo posições subjetivas conhecidas, mesmo quando elas produzem sofrimento. A viagem de Agneta tem algo de uma saída da repetição: ela não sabe exatamente o que busca, mas sabe que não suporta mais permanecer onde está.
O ENCONTRO COM EINAR

Quando ela descobre que o “menino” de quem cuidaria é, na verdade, um homem idoso, há um deslocamento muito interessante.
O inesperado invade a cena.
Einar funciona quase como uma figura que desmonta as defesas dela: sua espontaneidade, suas excentricidades, sua liberdade diante das convenções vão produzindo fissuras naquela vida excessivamente organizada e empobrecida afetivamente.
AS CENAS EM QUE ELA RI E DANÇA

Essas cenas me tocaram muito.
Porque não representam uma transformação grandiosa, mas a recuperação da capacidade de brincar.
Winnicott talvez dissesse que algo do gesto espontâneo retorna. O brincar não aparece aqui como infantilidade, mas como sinal de que a vida psíquica voltou a circular.
A CENA DIANTE DO ESPELHO

Uma das cenas que me marcou foi aquela em que ela se conecta com o próprio corpo diante do espelho. Quando Agneta começa a olhar para o próprio corpo de outra maneira, há algo muito bonito acontecendo. Não me parece uma cena de vaidade ou de rejuvenescimento narcísico. Vejo ali algo mais profundo: um encontro consigo mesma.
Ao longo do filme, tive a impressão de que Agneta construiu sua identidade fortemente apoiada em atender às demandas dos outros. Como mãe, esposa e trabalhadora, parecia sempre disponível para aquilo que era esperado dela. Em contrapartida, pouco espaço restava para escutar sua própria demanda e seu próprio desejo.
A cena frente ao espelho me remeteu imediatamente ao Estádio do Espelho, descrito por Lacan. Sabemos que a imagem especular ocupa um lugar fundamental na constituição do eu. Ao reconhecer-se na imagem, a criança inicia um processo de construção de sua identidade. De certa forma, tive a impressão de que Agneta realiza algo semelhante naquele momento. Não porque esteja construindo seu eu pela primeira vez, mas porque parece reencontrá-lo de outro modo, se apropriando de forma genuína de si mesma.

Um encontro consigo mesma genuíno e verdadeiro. Ela se abraça e pede desculpas. É uma cena emocionante! Ela se olha, se toca, reconhece seu corpo e, sobretudo, aceita quem é. Como se pudesse finalmente dizer: “Eu sou Agneta”.
Como se ela deixasse de olhar para si através do olhar crítico do outro e pudesse construir uma relação mais afetuosa com sua própria imagem.
O REENCONTRO DE EINAR COM SUA PRÓPRIA HISTÓRIA

As cenas relacionadas à dor de Einar, ao afastamento do filho e à exclusão vivida por ele por causa de sua homossexualidade são fundamentais porque mostram que o filme não fala apenas de liberdade, mas também das marcas do sofrimento e das perdas que cada sujeito carrega.
Talvez uma das mensagens mais psicanalíticas do filme esteja justamente aí: não nos transformamos porque apagamos nossas feridas, mas porque conseguimos dar novos destinos a elas.
A CENA FINAL

Sem entrar em detalhes para não reduzir sua potência, eu diria que a cena final é menos uma escolha amorosa e mais uma escolha subjetiva.
O que me emocionou foi perceber que Agneta finalmente deixa de existir apenas em função das necessidades dos outros.
Ela passa a ocupar o lugar de sujeito da própria vida.
ENTRE O DESEJO PRÓPRIO E O DESEJO DO OUTRO

Um eixo explorado no filme diz respeito a tensão entre o investimento no próprio desejo e o investimento no desejo do outro.
Einar é um personagem excêntrico, irreverente e permanentemente conectado as forças que impulsionam a vida. Em diversos momentos ele pergunta, repetidamente, em voz alta: “Como está minha libido?”. A cena pode parecer divertida, mas ela toca uma questão central da teoria freudiana. A libido é a energia da pulsão sexual, aquilo que impulsiona o sujeito, que o coloca em movimento.

Costumo utilizar uma metáfora simples para explicar isso a alguns pacientes: o carro mais sofisticado do mundo não sai do lugar sem combustível. Da mesma forma, sem desejo, a vida psíquica perde movimento.
Einar parece viver em permanente contato com essa dimensão desejante. Sua preocupação constante é não perder a ligação com aquilo que o faz sentir-se vivo.
Entretanto, ao longo do filme, fui percebendo que existe também um excesso nessa posição. Se Agneta parece ter vivido demasiadamente voltada para o desejo do outro, Einar parece ter vivido excessivamente voltado para o próprio desejo. Em alguns momentos, sua busca por autenticidade e liberdade parece deixá-lo pouco atento às necessidades e aos desejos daqueles que o cercam. O afastamento do filho talvez seja uma das consequências mais dolorosas dessa posição.
Foi justamente aí que o filme me pareceu especialmente interessante.

Agneta e Einar aparecem inicialmente como posições opostas. Ela sacrificou o próprio desejo para atender ao desejo dos outros. Ele privilegiou seu desejo a ponto de comprometer seus laços.
O encontro entre ambos produz deslocamentos importantes. Aos poucos, Agneta recupera seu investimento narcísico, sua capacidade de ocupar um lugar para si mesma. Einar, por sua vez, parece tornar-se mais sensível à presença do outro e aos efeitos que suas escolhas produzem nos vínculos. Agneta e Einar, ambos estavam presos em posições extremas e o encontro entre eles produziu uma transformação para os dois.
Talvez a grande transformação do filme não seja a descoberta do desejo, mas sua modulação. Nem submissão completa ao desejo do outro. Nem exclusividade absoluta do próprio desejo.
O que a experiência dos dois parece ensinar é que uma vida subjetivamente viva exige ambas as dimensões: a capacidade de sustentar aquilo que desejamos e, ao mesmo tempo, preservar a possibilidade do encontro com o outro.

Talvez seja justamente isso que Agneta encontra ao longo de sua jornada: não apenas a França, não apenas novas experiências, mas a si mesma.
E talvez seja por isso que o título do filme seja tão bonito. Ao final, quando ouvimos “Meu nome é Agneta”, não escutamos apenas um nome. Escutamos alguém que finalmente conseguiu ocupar um lugar na própria vida.


Rosita Esteves
Psicóloga | Psicanalista
Rua Moreira Cesar, 2821/23
(54) 99183 3344
Instagram: @rositaesteves.psicanalista
Site: https://rositaesteves.com.br/
2026/Maio
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