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“O monstro em mim” na perspectiva psicanalítica

28/12/2025

A minissérie "O monstro em mim" (The beast in me, Netflix, 2025) explora, por meio de um suspense psicológico, temas como luto, trauma, obsessão e a fronteira tênue entre o bem e o mal. Criada por Gabe Rotter, conta a historia de uma escritora traumatizada e com bloqueio criativo, Aggie Wiggs (Claire Danes), que encontra inspiração no seu misterioso vizinho, Nile Jarvis (Matthew Rhys), um magnata suspeito no assassinato e desaparecimento de sua esposa.

 

 

A narrativa sugere que, sob determinadas circunstâncias — especialmente quando há pressão psíquica e luto não elaborado —, aspectos mais sombrios da experiência humana podem emergir.

 

 

Sob a perspectiva psicanalítica, aquilo que se nomeia como “monstro” não corresponde a uma anomalia ou a algo estranho ao humano. Trata-se, antes, de uma dimensão constitutiva da vida psíquica. Freud nos ensina que somos atravessados por duas forças fundamentais: a pulsão de vida, que promove ligações, e a pulsão de morte, que tende ao desligamento, à repetição e, em certos momentos, à destrutividade. Essa força não é patológica em si; torna-se problemática quando não encontra possibilidades de ligação, simbolização e elaboração.

 

 

Na clínica contemporânea, o “monstro” raramente se apresenta como conflito neurótico clássico. Ele surge, mais frequentemente, sob a forma de excesso, vazio, atos impulsivos ou repetição mortífera — expressões de experiências que não puderam ser simbolizadas. O sofrimento não decorre apenas do que se deseja, mas sobretudo daquilo que não pôde ser nomeado, pensado ou inscrito na história do sujeito.

 

 

Nesse sentido, “O monstro em mim” pode ser compreendido como a face não simbolizada da pulsão: uma energia psíquica que, ao não encontrar palavras ou continência, retorna de forma bruta, muitas vezes através de sintomas, passagens ao ato ou violência dirigida a si ou ao outro. Não se trata de uma escolha consciente pela destruição, mas de uma tentativa precária de lidar com um transbordamento pulsional vivido como estranho e ameaçador.

 

 

Muitas dessas manifestações estão associadas a falhas precoces de cuidado, de reconhecimento do sofrimento ou de continência psíquica. Quando faltou um outro capaz de ajudar a dar sentido à experiência, o sujeito permanece sozinho diante de forças internas difíceis de suportar. O “monstro” insiste justamente onde faltaram palavras.

 

 

 

A ética que orienta minha prática clínica parte do princípio de que nada do que emerge no espaço analítico deve ser expulso, silenciado ou corrigido apressadamente. O trabalho analítico não visa eliminar o “monstro”, mas reconhecê-lo, escutá-lo e favorecer sua simbolização. O setting analítico constitui-se como um espaço de continência e transformação, no qual a palavra pode, pouco a pouco, substituir a descarga e o pensamento ocupar o lugar da repetição mortífera.

 

 

Trabalhar com o “monstro em mim” não significa enfrentá-lo ou domesticá-lo, mas humanizá-lo. Reconhecer essa dimensão é permitir que aquilo que antes operava de forma destrutiva encontre destinos mais criativos e responsáveis. Quando o “monstro” deixa de ser negado ou expulso da cena psíquica, ele perde sua condição de estrangeiro e pode ser integrado à história do sujeito.

 

 

A clínica psicanalítica contemporânea sustenta, assim, uma ética da escuta: não a negação da violência pulsional, mas sua transformação em pensamento, palavra e responsabilidade subjetiva. Reconhecer o “monstro” é, paradoxalmente, um gesto de humanização — um passo fundamental para que o sujeito se aproprie de sua própria experiência psíquica e encontre novas formas de estar no mundo.

 

 

 

Rosita Esteves

Psicóloga | Psicanalista

 

Rua Moreira Cesar, 2821/23

(54) 99183 3344

 

Instagram: @rositaesteves.psicanalista

Site: https://rositaesteves.com.br/

 

2025/Dez

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