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Do pathos ao ato clínico: o corpo e o sofrimento humano

08/08/2026

Ao longo de 2026, tenho participado semanalmente do Seminário do Laboratório de Psicopatologia: Sujeito e Singularidade (LaPSuS–UNICAMP), coordenado pelo psiquiatra e psicanalista Mario Eduardo Costa Pereira.

Neste ano, o seminário tem como tema “O corpo na (psico)patologia do sujeito — O corpo: destinos do resto” e parte de uma questão que atravessa a história da psicopatologia e permanece profundamente atual: de que maneira o sofrimento humano encontra no corpo um lugar para se expressar?

 

 

Uma das formulações que orientam o seminário diz que “o corpo é o lugar onde cada sujeito paga, à sua maneira, o preço da linguagem”. Em outra perspectiva, histórica e social, encontramos uma ideia complementar: cada época inscreve no corpo, à sua maneira, aquilo que não consegue simbolizar do sofrimento humano.

Essas duas proposições ajudam a compreender que, para a psicopatologia e para a psicanálise, o corpo não pode ser pensado apenas como organismo biológico. É, evidentemente, um corpo vivo, submetido às condições da biologia, mas é também um corpo atravessado pela linguagem, pelas relações, pela cultura, pela história e pelas formas de organização da sociedade em que cada sujeito vive.

 

 

Foi justamente essa complexidade que orientou os primeiros estudos do seminário. Situações muito diferentes entre si foram colocadas em diálogo: a histeria, na clínica vienense do final do século XIX; o banzo, no contexto da escravização africana no Brasil; e a busca guarani da “Terra sem Mal”.

Ao aproximar experiências tão distintas, não se pretende torná-las equivalentes. Ao contrário: trata-se de reconhecer que o sofrimento humano precisa ser compreendido também a partir das condições históricas, culturais e sociais nas quais se produz. O corpo que sofre tem uma história.

 

 

Essa perspectiva se amplia quando pensamos algumas formas contemporâneas de sofrimento que encontram no corpo um lugar privilegiado de expressão: os transtornos alimentares, as adições, o esgotamento, as intervenções reiteradas sobre o corpo e outras situações nas quais aquilo que não encontra representação ou elaboração psíquica pode aparecer corporalmente.

 

Do sofrimento ao ato clínico

Na retomada dos encontros neste segundo semestre, em 7 de agosto, Mario Eduardo Costa Pereira apresentou o seminário “Do pathos ao ato clínico”, partindo de uma pergunta aparentemente simples, mas decisiva:

O que faz de um sofrimento humano uma questão clínica?

 

 

A palavra grega pathos, da qual deriva “patologia”, permite pensar uma experiência de sofrimento, de padecimento, algo que acontece a alguém e que o afeta. Mas nem todo sofrimento humano se transforma automaticamente em uma questão clínica.

Para que isso aconteça, é necessário que alguém se disponha a escutá-lo e, sobretudo, que suponha ser possível fazer algo diante dele.

É nesse ponto que surge uma distinção importante entre ciência e techné.

 

 

A ciência procura produzir conhecimento sobre os fenômenos. A techné, por sua vez, diz respeito a um saber implicado no fazer, na possibilidade de agir diante de uma determinada situação. A clínica necessita do conhecimento científico, dialoga com diferentes saberes e se beneficia deles, mas não se reduz à aplicação de conhecimentos previamente estabelecidos.

 

 

Podemos conhecer cada vez mais sobre o corpo por meio da biologia, da genética, da medicina, da história, da antropologia, da sociologia ou da psicanálise. Todos esses saberes ampliam nossa compreensão. Ainda assim, diante de uma pessoa que sofre, permanece uma pergunta que nenhuma teoria pode responder antecipadamente por completo:

o que fazer, neste encontro, com este sujeito singular?

 

 

É aí que entramos propriamente no campo do ato clínico.

O clínico não se encontra diante apenas de uma doença, de um diagnóstico ou de um organismo que apresenta sintomas. Encontra-se diante de alguém cuja experiência de sofrimento possui uma história, sentidos, relações e formas singulares de se inscrever no corpo.

 

 

Por isso, uma das afirmações apresentadas no encontro sintetiza de maneira especialmente importante essa perspectiva:

“O corpo nunca é apenas organismo.”

 

Reconhecer a dimensão biológica não significa reduzir o corpo à biologia. Da mesma maneira, reconhecer as dimensões psíquicas, históricas e sociais não significa desconsiderar sua materialidade orgânica. A clínica acontece justamente nesse território complexo em que essas diferentes dimensões se encontram.

Talvez possamos compreender, então, por que o sujeito se torna indispensável ao ato clínico. Não tratamos apenas aquilo que alguém tem; encontramos alguém que sofre.

 

 

E esse encontro exige conhecimento, certamente, mas exige também escuta, discernimento e uma resposta que precisa ser construída diante da singularidade de cada situação.

O primeiro encontro deste segundo semestre deixa, assim, uma questão que considero especialmente fecunda para continuarmos pensando a clínica:

O que fazemos com tudo aquilo que sabemos quando, diante de nós, está um sujeito que sofre?  

 

 

Créditos das imagens: 

Slides de autoria do Prof. Dr. Mario Eduardo Costa Pereira, apresentados no Seminário do LaPSuS–UNICAMP/2026.

Fotografias realizadas pela autora.

 

 

 

Rosita Esteves

Psicóloga | Psicanalista

 

Atendimento Presencial e On-line

 

Rua Moreira Cesar, 2821/23

(54) 99183 3344

 

Instagram: @rositaesteves.psicanalista

Site: https://rositaesteves.com.br/

 

2026/Agosto

 
 
 
 
 

 

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