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Seminário 1 de Jacques Lacan

24/06/2025

 

Grande parte da obra de Jacques Lacan tem origem nos seminários que ele ministrava em encontros abertos ao público. O primeiro desses seminários foi realizado em seu próprio consultório.

 

 

O Seminário 1, considerado o início formal do seu ensino, aconteceu em 1953 e tem como texto central Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise, apresentado em um congresso em Roma. Ali, Lacan afirma sua posição própria dentro da psicanálise e propõe um retorno a Freud, agora orientado pela linguagem.

 

Antes desse seminário, Lacan produziu dois textos preparatórios:

O primeiro, conhecido como Seminário menos 1, teve parte de seu conteúdo preservado apenas por anotações de François Duras e está ligado a materiais preparatórios referentes ao caso do Homem dos Lobos, descrito por Freud. Já o segundo, chamado de Seminário Zero, corresponde ao texto O Mito Individual do Neurótico, no qual Lacan analisa o caso do Homem dos Ratos a partir de hipóteses estruturais.

 

 

No Seminário 1, Lacan inicia de seu ensino formal, momento em que começa a falar em nome próprio. Nesse seminário ele aprofunda sua leitura dos textos técnicos de Freud, especialmente aqueles que abordam a transferência, o início do tratamento e as resistências. 

 

Lacan inicia o comentário sobre os escritos técnicos de Freud. Os textos analisados nesse seminário são:

 

Recordar, repetir e elaborar (1914)

Observações sobre o amor de transferência (1915)           

Sobre o início do tratamento (1913)

A dinâmica da transferência (1912)

 

 

Um dos principais movimentos de Lacan nesse momento é recolocar as questões freudianas sob a ótica da linguagem, destacando-a como eixo da experiência psicanalítica. Para ele, a resistência não pertence ao ego do analisante, mas sim ao discurso — sendo, portanto, relacionada ao analista, que é o destinatário desse discurso. Assim, Lacan conclui que a resistência do analista se dá justamente por ele se aproximar do conflito inconsciente do paciente, o que acaba gerando reações defensivas.

 

 

Ele enfatiza que a psicanálise é, essencialmente, uma análise do discurso, voltada à transformação do sujeito. 

No seminário, Lacan comenta dois casos clínicos: o de um menino que só falava para dizer “lobo” e o do pequeno Dick, paciente de Melanie Klein, que praticamente não falava. Também revisita a teoria freudiana do narcisismo, em diálogo com o registro do imaginário.

 

Segundo Lacan, o processo analítico se desenvolve por meio de dois movimentos alternados. Primeiro, o paciente projeta no analista imagens ligadas a seus complexos e repetições inconscientes (registro do imaginário). Em seguida, o analista responde a essa projeção com uma interpretação simbólica (registro do simbólico). A clínica se dá, assim, no entrelaçamento entre o imaginário e o simbólico, com o analista exercendo a função de promover simbolizações.

 

 

Um dos capítulos centrais desse seminário trata da noção de que a verdade emerge da equivocação. Lacan explora o funcionamento do significante e propõe que sua operação depende da possibilidade de contradição. Ele usa como exemplo o processo de aquisição da linguagem pela criança (como o sujeito entra na linguagem). No início, ela utiliza uma única palavra para exprimir toda uma frase ou situação relacional — esse estágio é chamado de holófrase. Depois, surge o primeiro binário, ou seja, a primeira oposição clara entre dois significantes (como “au-au” para cachorro e “miau” para gato). Por fim, a criança alcança uma terceira etapa, na qual compreende que é possível brincar com a contradição: ela diz, por exemplo, que o gato faz “au-au”, subvertendo o uso usual dos signos. Essa capacidade de produzir negações e contradições marca o início da entrada do sujeito na linguagem.

 

 

Lacan ilustra essa lógica com o exemplo do elefante e da girafa, perguntando por que chamamos o elefante de “elefante” e não de “girafa”, apontando para o caráter arbitrário da relação entre significante e significado. Isso demonstra que não há uma ligação natural entre a palavra e o objeto — e sim um sistema de trocas simbólicas que constrói o sentido.

 

 

Durante o seminário, Lacan distribuiu figurinhas de elefantes (ficou sendo a imagem da capa do Seminário 1) aos participantes para ilustrar essa lógica das trocas e mostrar, de forma vivencial, como a significação se constrói na linguagem.

 

Esse jogo de trocas serve para demonstrar como os signos — compostos por significante e significado — operam não apenas dentro de um sistema de linguagem, mas também na construção da significação, abrindo espaço para a entrada da verdade e da mentira nas relações humanas. Essa articulação entre linguagem, verdade e saber é um ponto central na teoria lacaniana.

 

 

A escolha do elefante, embora arbitrária, também pode remeter à escuta — dada a associação com suas grandes orelhas — o que reforça a importância da escuta, elemento fundamental na prática psicanalítica.

 

 

 

Rosita Esteves

Psicanalista

 

Rua Moreira Cesar, 2821/23

(54) 99183 3344

 

Instagram: @rositaesteves.psicanalista

Site: https://rositaesteves.com.br/

 

2025/Jun

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